“Literatura de Informação”

Olá, galerinha! Vou colocar aqui o material sobre o Quinhentismo, ou Crônicas de Viagem, ou Literatura de Informação.

São trechos dos primeiros escritos sobre o Brasil recém “descoberto”. Mas antes dos trechos, olha que legal essa propaganda dos correios utilizando trechos da Carta de Pero Vaz de Caminha:

  LITERATURA DE INFORMAÇÃO

Os primeiros textos escritos sobre o Brasil são de portugueses que, de algum modo, participaram do processo de “descoberta” e colonização da “nova terra”: são informações que viajantes e missionários colheram sobre a natureza e o homem brasileiro; por isso uma das reações mais típicas é o espanto com a natureza exuberante do país e com o costume dos índios. Esta presença do natural, rico e estranho, ou até bizarro, aparece nos autores sistematicamente. Enquanto informação, não pertencem à categoria do literário, sendo pura crônica histórica. No entanto, esses escritos interessam como reflexo da visão do mundo e da linguagem que nos legaram os primeiros observadores do país. Interessam, também, como sugestões temáticas e formais, pois em mais de um momento a inteligência brasileira, reagindo contra processos agudos de europeização, procurou nas raízes da terra e do nativo imagens para se afirmar em face do estrangeiro: então, os cronistas voltaram a ser lidos tanto por um Alencar romântico e saudosista como por um Mário ou Oswald de Andrade modernistas.

Olhem alguns dos primeiros mapas a retratarem os “novos mundos”:

Esse próximo chama “Terra Brasilis”:

Já deu para perceber um pouco da visão dos europeus sobre o Brasil, não é? Os texto que seguem além de muito interessantes, nos permitem ter uma noção mais exata de como era essa visão sobre esse “novo Edem”.

 ” TRATADO DA TERRA DO BRASIL, NO QUAL SE CONTEM A INFORMAÇÃO DAS COUSAS QUE HÁ NESTAS PARTES, FEITO POR PERO DE MAGALHÃES GÂNDAVO TRATADO SEGUNDO

DAS COUSAS QUE SÃO GERAES POR TODA COSTA DO BRASIL  
 CAPÍTULO PRIMEIRO – DAS FAZENDAS DA TERRA

Os moradores desta Costa do Brasil todos têm terras de Sesmarias dadas e repartidas ppelos Capitães da terra, e a primeira cousa que pretendem alcançar são escravos pera lhes fazerem e grangearem suas roças e fazendas, porque sem elles não se podem sustentar na terra: e huma das cousas porque o Brasil não florece muito mais, he pelos escravos que se alevantarão e fugirão pera suas terras e fogem cada dia: e se estes indios não forão tam fugitivos e mudaveis, não tivera comparação a riqueza do Brasil. As fazendas donde se colnsegue mais proveito são assuscres, algodões e pao do Brasil, com isto fazem pagamento aos mercadores que deste Reino lhes levão fazenda porque o dinheiro he pouco na terra, e assi vendem e trocão huma mercadoria por outra em seu justo preço.”

 “DA CONDIÇAO E COSTUMES DOS INDIOS DA TERRA

Não se pode numerar nem comprender a multidão de barbaro gentio que semeou a natureza por toda esta terra do Brasil; porque ninguém pode pelo sertão dentro caminhar seguro, nem passar por terra onde não acha povoações de indios armados contra todas as nações humanas, e assi como são muitos permitiu Deos que fossem contrarios huns dos outros, e que houvesse entrelles grandes odios e discordias, porque se assi não fosse os portuguezes não poderião viver na terra nem seria possivel conquistar tamanho poder de gente. A lingua deste gentio toda pela Costa he, huma: carece de tres letras —scilicet, não se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assi não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente.”

Percebam como a visão do europeu colonizador procura justificar ideologicamente a conquista do território e o tratamento dado aos índios. Dá vontade é de rir – de tão absurdo que é isso de os índios não terem Fé, nem Lei, nem Rei, cabendo aos europeus “civilizarem” os gentios.

“Quando estes indios tomão alguns contrarios, se logo com aquelle impeto os não matão, levão-nos vivos pera suas aldêas (ou sejão portuguezes ou quaesquer outros indios seus imigos), e tanto que chegão a suas casas lanção huma corda mui grossa ao pescoço do cativo pera que não possa fugir, e armão-lhe huma rede em que durma e dão-lhe huma india moça, a mais fermosa e honrada que ha na aldêa, pera que durma com elle, e tambem tenha cuidado de o guardar, e não vai pera parte que não no acompanhe. Esta india tem cargo de lhe dar muito bem de comer e beber; e depois de o terem desta maneira cinco ou seis mezes ou o tempo que querem, determinão de o matar; e fazem grandes cerimonias e festas aquelles dias, e aparelhão muitos vinhos pera se embedarem, e fazem-nos da raiz duma herva que se chama aypim, a qual fervem primeiro e depois de cozida mastigão-na humas moças virgens espremem-na nuns potes grandes, e dalli a tres ou quatro dias o bebe. E o dia que hão de matar este cativo, pela manhã se alguma ribeira está junto daldêa levão-no a banhar nella com grandes cantares e foliaz tanto que chegão com ele á aldêa, atão-no pela cinta com quatro cordas cada huma pera sua parte e tres, quatro indios pegados em cada ponta destas e assi o levão ao meio dum terreiro, e tirão tanto por estas cordas que não se possa bolir pera huma parte nem pera outra, as mãos deixão soltas porque folgão de o ver defender com ellas.”

Repararam que a índia segura o que parece ser um braço e leva na cesta um pé, como quem leva algo para comer enquanto faz uma caminhada longa? O ritual da Antropofagia foi um, senão o mais, dos costumes indígenas que chocou o europeu.

  “Aquelle que o hade matar empenna-se primeiro com pennas de papagaio de muitas cores por todo o corpo: ha de ser este matador o mais valente da terra, e mais honrado. Traz na mão huma espada dum pao mui duro e pesado com que costumão de matar, e chega-se ao padecente dizendo-lhe muitas cousas e ameaçando-lhe sua geração que o mesmo ha de fazer a seus parentes; e depois de o ter afrontado com muitas palavras injuriosas da-lhe huma grande pancada na cabeça, e logo da primeira o mata e lhe fazem pedaços. Está huma india velha com hum cabaço na mão, e assi como elle cae acode muito de pressa com elle a meter-lho na cabeça pera tomar os miollos e o sangue: tudo emfim cozem e assão, e não fica delle cousa que não comam. Isto he mais por vingança e por odio que por se fartarem. Depois que comem a carne destes contrarios ficão nos odios confirmados e sentem muito esta injuria, e por isso andão sempre a vingar-se huns contra os outros. E se a moça que dormia com o cativo fica prenhe, aquella criança, que pare depois de criada, matão-na e comem-na e dizem que aquella menina ou menino era seu contrario verdadeiro por isso estimão muito comer-lhe a carne e vingar-se delle. E porque a mãi sabe o fim que hão de dar a esta criança, muitas vezes quando sente prenhe mata-a dentro da barriga e faz com que morra. E acontece algumas vezes affeiçoar-se tanto a este cativo e tomar-lhe tanto amor que foge com elle pera sua terra pera o livrar da morte. E assi alguns portuguezes ha que desta maneira escaparão e estão hoje em dia vivos; e muitos indios que do mesmo modo se salvarão, ainda que são alguns tam brutos que não querem fugir depois de os terem presos; porque houve algum que estava já no terreno atado pera padecer e davão-lhe a vida e não quiz senão que o matassem, dizendo que seus parentes o não terião por valente, e que todos correrião com elle; e daqui vem não estimarem a morte; e quando chega aquella hora não na terem em conta nem mostrarem nenhuma tristeza naquelle passo.”

Gravura de Theodore de Bry (1592)

Mais para frente, na primeira geração do Modernismo, teremos um Manifesto que propões uma antropofagia cultural, escrito por Oswald de Andrade. Antes dele, Gonçalves Dias e José de Alencar, representantes do Romantismo brasileiro, vão idealizar o índio e retratar belamente muitos de seus costumes. Cenas dos próximos capítulos – e a tendência é melhorar!

O que acharam? Interessante, não é?!

Steller de Paula

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1 comentário

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Uma resposta para ““Literatura de Informação”

  1. Jão

    Antropofagia moderna…
    Cotidiano das empresas baseadas no capital…
    Tem coisa que nunca muda,só se transforma.

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