Desabafo Literário – I

“Ninguém me fará calar, gritarei sempre

que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,

negociarei em voz baixa com os conspiradores,

transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,

serei, no circo, o palhaço,

serei médico, faca de pão, remédio, toalha,

serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,

serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:

tudo depende da hora e de certa inclinação feérica,

viva em mim qual um inseto.

Uma parte de mim sofre, outra pede amor,

Outra viaja, outra discute, uma última trabalha,

Sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também

Na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,

Que lute lealmente com sua presa,

E reconheça o dia entrando em explosões de confiança,

Esquecimento, amor,

Ao fim da batalha perdida.”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

1 comentário

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Uma resposta para “Desabafo Literário – I

  1. Maria Erika Azevedo Alcanfor.

    Sou professora do pré-vest e Justiniano de Saerpa,realmente o ma´terial tem uma riqueza significativa pra ser trabalhada em sala de aula.Parabéns.

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